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O renascimento do íbis-de-crista-asiático
A endogamia e a demografia interagem, impactando a recuperação de uma população de íbis-de-crista que sofreu um gargalo populacional.
Por Laercio Damasceno - 15/02/2026


Um íbis-de-crista alimenta filhotes na vila de Tianling, no condado de Yangxian, na cidade de Hanzhong, província de Shaanxi, noroeste da China, em 2 de junho de 2018. (Xinhua/Tao Ming)


Um modelo matemático inspirado na dramática trajetória do íbis-de-crista mostra que o sucesso na recuperação de espécies ameaçadas pode ser menos obra do acaso e mais resultado da combinação entre demografia favorável e manejo estratégico. Publicado neste sábado (14), na revista Nature Communications, o estudo reconstrói, por meio de simulações computacionais, como a população do Nipponia nippon saltou de apenas sete indivíduos, em 1981, para mais de 9 mil em quatro décadas — um dos casos mais emblemáticos da conservação moderna.

Redescoberto em uma vila montanhosa da província de Shaanxi, na China, após ser considerado extinto em grande parte da Ásia Oriental, o íbis-de-crista tornou-se símbolo de restauração ecológica. A espécie havia desaparecido da Rússia, Coreia e Japão no século 20, vítima de perda de habitat, poluição e caça.

Quando foi reencontrado, restavam apenas dois casais reprodutivos e três filhotes. “Era um cenário clássico de gargalo populacional extremo”, afirmam os autores, liderados por Jia Zheng, da Universidade Normal de Pequim, e Xiang-Yi Li Richter, da Universidade de Berna.

Hoje, segundo dados oficiais chineses citados no artigo, a população ultrapassa 9 mil indivíduos, entre animais silvestres e em cativeiro.

Modelo prevê recuperação com 97% de sucesso

Para entender como a espécie superou os riscos da consanguinidade — inevitável quando restam poucos indivíduos — os pesquisadores desenvolveram um modelo individualizado que incorporou taxas reais de sobrevivência juvenil e adulta; tamanho médio de ninhadas; sucesso de eclosão; e o impacto do coeficiente de endogamia (F) na taxa de eclosão.

Em 300 simulações, 291 (97%) resultaram em recuperação populacional bem-sucedida, atingindo a marca de 9 mil indivíduos. O tempo médio estimado para a recuperação foi de 46,5 anos — muito próximo dos 41 anos observados empiricamente.

“O alinhamento entre simulações e dados reais sugere que a recuperação foi amplamente determinística”, escrevem os autores. Em outras palavras, dadas as características demográficas da espécie e o manejo aplicado, o sucesso era altamente provável.

O coeficiente médio de endogamia nas populações restauradas foi de 0,19 — praticamente igual ao valor observado em indivíduos monitorados (0,17; IC 95%: 0,155–0,175).

Estratégias de reintrodução: ‘fogos de artifício’ vencem ‘sequencial’

Esta foto, tirada em 20 de maio de 2024, mostra uma sala de berçário para filhotes de íbis-de-crista no Centro de Restauração de Íbis-de-Crista de Upo, em Changnyeong, Coreia do Sul. (Xinhua/Yao Qilin)

Além de reconstruir o passado, o estudo comparou duas estratégias teóricas de reintrodução:

? Modelo “firework” (fogos de artifício)
Várias populações são criadas simultaneamente a partir de uma população-fonte restaurada.

? Modelo “sequencial”
Novas populações são fundadas sucessivamente a partir de populações recém-restauradas.

As simulações mostram que o modelo “firework” apresenta maior probabilidade de sucesso; menor acúmulo de endogamia; menor número mínimo de fundadores necessários.

No modelo sequencial, a consanguinidade se acumula ao longo das rodadas de reintrodução, aumentando o risco de colapso populacional — especialmente quando menos de sete casais fundadores são utilizados.

“A abordagem ‘firework’ mitiga o efeito cumulativo da endogamia”, destacam os pesquisadores.

Demografia importa — e muito

Um dos achados mais amplos do estudo é que o impacto da endogamia depende fortemente da demografia da espécie.

Ao testar o modelo em parâmetros inspirados em 41 espécies de aves (dados da base COMADRE), os pesquisadores classificaram três perfis:

Tipo I (como o íbis): altas taxas de sobrevivência ? endogamia tem impacto limitado.

Tipo II: demografia intermediária ? endogamia pode ser decisiva para o fracasso.

Tipo III: altas taxas de mortalidade ? extinção provável mesmo sem efeito genético.

Espécies de vida longa, como o íbis, compensam parcialmente a baixa taxa reprodutiva com múltiplas tentativas ao longo da vida. “A fecundidade acumulada ao longo das décadas pode amortecer os efeitos da consanguinidade”, afirmam.

Implicações globais

Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), mais de 25% das espécies avaliadas estão ameaçadas de extinção. O novo Marco Global da Biodiversidade de Kunming–Montreal estabelece metas ambiciosas de restauração até 2030.

O estudo sugere que modelos quantitativos podem ajudar a prever quando a endogamia será um obstáculo real — e quando fatores demográficos serão mais determinantes.

“Populações podem crescer apesar de altos níveis de endogamia, desde que apresentem taxas favoráveis de sobrevivência e reprodução”, escrevem os autores. Por outro lado, espécies com baixa sobrevivência adulta podem fracassar mesmo com diversidade genética relativamente preservada.

Uma lição além do íbis

O caso do íbis-de-crista indica que gargalos genéticos não são sentença definitiva. Mas também alerta que sucesso depende de estratégia, número adequado de fundadores e compreensão detalhada da biologia da espécie.

Ao integrar genética e demografia em um mesmo arcabouço teórico, o trabalho oferece uma ferramenta prática para gestores ambientais.

Num cenário de mudanças climáticas aceleradas e pressão antrópica crescente, entender como — e por que — algumas espécies conseguem se recuperar pode fazer a diferença entre extinção e sobrevivência.


Referência
Zheng, J., Rees-Baylis, E., Janzen, T. et al. Endogamia e demografia interagem para impactar a recuperação de uma população de íbis-de-crista submetida a gargalo populacional. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69278-3

 

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